Mario Lucio Sapucahy

Estrada Real

aventura e história em 9 dias de pedal

São João Del Rei/MG

A aventura começou com o convite feito por Rodolfo Galvão desafiando-me a acompanhá-lo num pedal pela via histórica. A amizade vem da infância, mas há décadas morando distantes atualmente nos encontramos quando ele volta a São José dos Campos para visitar a família. Galvão é biológo de formação, empresário por vocação e triatleta por paixão; Eu sou geógrafo e atualmente desenvolvo projeto de pesquisa em nível de doutorado, boa parte de minha vida profissional foi como repórter fotográfico atuando em jornais diários. Não tenho a sombra do preparo físico de um triatleta e isso foi minha maior preocupação em relação a essa viagem. Conseguiria acompanhá-lo? Assim que aceitei o convite deixei claro: “-Eu não faço prova de resistência, meu negócio é cicloturismo, lazer e fotografia.” Já no primeiro morro/desafio a preocupação se desfez, a pedalada seria árdua, mas divertida, o mútuo espírito de companheirismo era evidente, dois guris cinquentões pedalando nas montanhas de Minas.

Nos hospedamos numa pousada no centro histórico de Ouro Preto, um velho casarão colonial que escolhemos por conta da boa acolhida na recepção. O primeiro dia amanheceu com uma chuvinha fina, preparamos as bicicletas, ajustamos os alforjes, nos despedimos do amigo Samuel Gomes que gentilmente nos acompanhou até Ouro Preto para de lá retornar com o carro e partimos para nosso destino primeiro o prédio do SESI onde fica o Centro Cultural e Turístico para retirar nossos passaportes da Estrada Real, como já havíamos nos cadastrado no institutoestradareal.com.br a expedição foi rápida. No passaporte são feitos os carimbos nos postos ao longo do caminho, cada carimbo um símbolo diferente, quase sempre identificando a igreja local, obtendo a quantidade mínima para cada trecho seu portador recebe no destino final o certificado de conclusão. No documento há importantes indicações sobre como se orientar seguindo os totens ao longo do trajeto. Contávamos ainda com o mapa que acompanha o passaporte e as planilhas de navegação disponíveis no mesmo institutoestradareal.com.br.

Deixamos a turística praça Tiradentes tomando a esquerda do Museu de Mineralogia e seguindo pela rua Padre Rolim no sentido de Cachoeira do Campo até o trevo com a rodovia dos Inconfidentes onde tomamos a direita, exatamente nesse ponto surgiu nosso primeiro desafio, a primeira e inesquecível montanha do caminho, um aclive longo e acentuado. Tomado de entusiasmo pelo início da aventura e sem poder dimensionar o tamanho do desafio que tinha a frente, porque a curva inicial prepara essa surpresa aos incautos, engatei a primeira marcha e botei energia extra nas pedaladas, mais do que devia. Resultado foi que muito antes do que imaginava me vi empurrando a magrela morro acima, uma segunda curva mostrou o final do asfalto e o cume, para atingi-lo percorri extenuantes 1,4 km. Rodolfo, por sua vez mostrou seu preparo e experiência, entrou sem tanto entusiasmo e atingiu o cume pedalando. Lá no alto o primeiro gole d’água e a primeira descida controlada. Por dias os caminhos seguiram assim, subindo na primeira marcha e descendo no freio, com raros trechos sem inclinação, uma verdadeira travessia de um mar de morros. Rodolfo só não zerou toda a Estrada por conta de um morro enjoado na saída de Lobo Leite, todas as outras montanhas do caminho as venceu no pedal.

São Bartholomeu foi nossa primeira parada, uma localidade singela, igrejinha, bica d’água na praça, meia dúzia de ruas, se tanto. O primeiro lanche foi numa mercearia, o único estabelecimento aberto àquele momento. Ao retomarmos o roteiro dispensamos a consulta da planilha e escolhemos aleatoriamentes um dos dois caminhos indicados por moradores, esse descuido foi a origem do nosso primeiro desvio da rota original. Nossa escolha nos tirou do caminho de Glaura e nos levou direto para Cachoeira do Campo, que seria o destino depois de Glaura, de tal forma que depois de cruzarmos o Alto da Beleza, nos deparamos com uma confluência onde uma placa indicava Glaura a direita e Cachoeira do Campo a esquerda, como sabíamos que Glaura era destino que precedia Cachoeira do Campo, tomamos a direita e pedalamos por 6 kms. Uma vez chegados a Glaura demos conta do erro e a sequência correta da rota nos levou a retornar pelo mesmo caminho que acabáramos de trilhar. Esse contratempo nos alertou para a necessidade da constante consulta do mapa e das planilhas de navegação, ainda assim, ao longo do trajeto pequenos desvios de rota voltaram a ocorrer causados tanto por nossa desatenção como por falta de sinalização ou pela orientação imprecisa da planilha. Diferentemente dessa primeira experiência, em que a orientação de moradores nos induziu ao erro, em outras oportunidades fomos convencidos por moradores locais a nos desviar da rota original pela condição precária de um trecho, ocasiões em que nos coube decidir confiar ou não, desviar ou não.

São Bartolomeu, Ouro Preto/MG

Nossa viagem de Ouro Preto a Paraty consumiu 9 dias, de 1º a 9 de dezembro, mas devo dizer que não foi completa, dois trechos foram suprimidos. O primeiro por conta de uma gancheira entortada e a segunda por nossa opção. No trecho entre São João Del Rei e São Sebastião da Vitória empurrando a bicicleta sobre um mata-burro a roda traseira escorregou no vão fazendo bater o macaquinho na travessa e entortando a gancheira que o suporta, essa avaria impossibilitou o engate da primeira marcha, justamente a mais usada no percurso. Ao chegarmos a São Sebastião da Vitória fomos informados que não só ali não havia bicicletaria como também nas próximas três cidades da rota, nossa saída foi tomar um ônibus circular de volta a São João Del Rei para conseguir o reparo. Esse contratempo nos prendeu por um dia em São João, como tínhamos um cronograma apertado, por conta de compromissos pessoais, decidimos tomar um ônibus direto para Caxambu, cidade que deveríamos estar caso nada houvesse nos atrasado. A segunda supressão de trecho foi de Passa-Quatro a Cunha, quando decidimos fazer o trecho de automóvel por ser um trecho que já conhecíamos e porque dificilmente conseguiríamos completar o percurso dentro do nosso prazo, assim, depois de Passa Quatro só voltamos a usar as bicicletas no alto da Serra do Mar, na estrada Cunha Paraty, no trecho que foi recentemente calçado, foram 13 km serra abaixo, uma descida deliciosa encerrando a viagem na Pousada Vila Água, definitivamente a melhor pousada de toda nossa aventura. No dia seguinte recolhemos o último carimbo e recebemos o certificado no posto de informações turísticas na entrada do Centro Histórico de Paraty.

A experiência da Estrada Real foi extenuante, estimulante e gratificante. As dificuldades em transpor a sucessão de montanhas da rota eram recompensadas pela emoção da conquista e pelo prazer das paisagens descortinadas. Ficarão para sempre em nossa memória a travessia de riachos, de trechos arborizados, do cheiro de mato, de florestas de eucaliptos, a diversidade das aves avistadas, o ar puro das montanhas, mas sobretudo do contato com o povo mineiro que tão bem nos acolheu pelo caminho. Gente como Yara e Caíque, amáveis e prestativos funcionários do Hotel Ville Real em Santo Antônio do Leite e, na mesma cidade, Jorge, proprietário do “Bar do Jorge” que conhece como poucos as trilhas da região e entre caldinhos e torresmos compartilhou preciosas orientações sobre as dificuldades do caminho; Em Congonhas a guarda municipal Cristina que patrulha o adro da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos onde estão expostas as obras de Aleijadinho, simpática e bem humorada, tentou nos mostrar como um detalhe do frontão da Basílica visto através da tela da câmera fotográfica revela a face de Cristo, mas mesmo após minutos de observação, onde ela via Jesus só identificamos Raul Seixas com seu inconfundível cavanhaque; Na mesma Congonhas conhecemos Pablo, o criador de pombos-correio, que na véspera de seu casamento insistiu em dois convites que nos foi ao mesmo tempo difícil e forçoso recusar, para que ficássemos para a cerimônia de casamento e para levarmos para Paraty meia dúzia de pombos para que de lá fizessem a viagem de volta; Em São Brás do Suaçui conhecemos o hábil e engenhoso mecânico Luciano; Em Alto Maranhão o caseiro Saulo permitiu usarmos a mangueira para lavar um “algo” mal cheiroso que se prendeu na minha sapatilha e no pedal e nos orientou sobre um trecho em declive perigoso, “de pedra-sabão”, que viria logo a frente onde deveríamos apear para cruzar sem risco; Em Entre Rios de Minas, Jairo, o proprietário do bar Ponto de Encontro que conseguiu nos arrumar um quarto numa cidade em que hotéis e pousadas estavam todos lotados em razão de um casamento que acontecia naquele final de semana, nos hospedamos na Pousada Arapuca, nome melhor impossível, ainda assim valeu cair naquela arapuca, porque era o que tínhamos para o momento; Na mesma Entre Rios de Minas conhecemos o jovem “mountain biker” Emanuel, garoto vitorioso, que horas mais tarde voltamos a encontrá-lo já devidamente medalhado numa prova que rolava na cidade vizinha de Lagoa Dourada; Nessa prova conhecemos João, proprietário da Del Rey Bike (São João Del Rei) que dava apoio ao evento e que voltaríamos a encontrar dois dias depois na sua bicicletaria, um estabelecimento muito bem montado com uma imensa variedade de artigos e profissionais muito bem treinados, um deles Alexandre Paiva, guia de cicloturismo na região, profundo conhecedor de trilhas ao longo do trecho mineiro da Estrada Real, que nos orientou a procurar o AZ Hostel o que nos levou a conhecer Flávia e sua filha Alícia, a carioca Flávia que mergulhou de cabeça nas montanhas de Minas trazendo seus anos de experiência em hotelaria para montar em São João um hostel de extremo bom gosto e super aconchegante, conhecedora de cada canto da cidade nos indicou as melhores opções de gastronomia e lazer; ainda em São João, Salomão, o mototaxista que nos fez a gentileza de se desviar do seu caminho para nos alertar de não seguir a rota indicada na planilha a fim de evitar cair num atoleiro que “ninguém merece” e nos indicou o caminho alternativo; Em Caxambu quem fez o que pode para nos bem acolher foi Sandro, funcionário do Hotel Caxambu, o estabelecimento hoteleiro mais antigo em funcionamento no Brasil; Em Pouso Alto a bela Ana Júlia, funcionária do empório não podia deixar de ser aqui citada e ainda um número incontável de mineiros que encontramos pelo caminho e que, de alguma forma, tornaram essa experiência única e valiosa através de gestos, palavras e sorrisos. Muito são os motivos para recomendar essa mesma jornada, mas particularmente para mim, muito além das belas paisagens, da rica história impregnada no casario, nos museus, nas igrejas e nas pedras das ruas capistranas, da cultura de um povo orgulhoso de seus saberes e fazeres, está nessa troca de gentilezas, nas experiências vivenciadas em dedos de prosa, a real recompensa garimpada na longa travessia dessa Estrada Real.

Hospedagem

Muitas são as ofertas de hospedagem ao longo do trajeto, as que aqui identificamos são aquelas que utilizamos e recomendamos. Idem para as indicações de biclicletarias e do guia.

Ouro Preto : Pousada Solar do Carmo, Rua Camilo de Brito 21A, Centro f. 31 35523382 | pousadasolardocarmo.com.br | solardocarmo@uol.com.br

Santo Antônio do Leite/Ouro Preto: Hotel Ville Real, Rua Antônio dos Santos, 5, Centro f. 31 3553 4440 / 3553 4352 | villereal.com.br | relacionamento@villereal.com.br

Lagoa Dourada: Pousada Vertentes, Praca Dom Antonio de Assis 25 f. 32 33631103 Congonhas: Pousada Circuito dos Inconfidentes, Avenida Bias Fortes 1172 f. 31 37321243 | circuitodosinconfidentes.com.br | circuitodosinconfidentes@gmail.com

Tiradentes: Pouso Tiradentes,Rua Manuel Morais Batista Júnior 512 f. 32 33551780

São João Del Rei: AZ Hostel, Rua Marechal Bittencourt 73 (rua da Cachaça ou rua da Zona) f. 32 988542842 / 999942709 | azhostel.com.br | reservas@azhostel.com.br | facebook.com/azhostel

Caxambu: Hotel Caxambu, Rua Major Penha, n.145, Centro f. 35 3341-9300 | hotelcaxambu.com.brr | reservas@hotelcaxambu.com.br

Paraty: Pousada Vila Água, Rod. Parati-Cunha 16561 Km 7.1 f. (EUA) 1-407-301-5465 (Whattsapp & Facetime) ou 1-407-705-2647 | vilaagua.weebly.com

Oficinas

São Brás do Suaçui: Lu Bike, Rua Acrísio Amâncio 2 Centro f. 31 99033145

São João Del Rei: Del Rey Bike, avenida Josué de Queiroz 25/A Matosinhos f. 32 33716105, whatsapp 32 988476105 | delreybike@mgconecta.com.br

Guia

Alexandre Paiva: f. e whatsapp 32 91296957 | carlosalexandrepaivasjdr@hotmail.com | facebbok.com/alexandre.com.73307

dezembro de 2016